Publicado por: rizuto | setembro 16, 2007

Homenagem a um amigo

Eu e ele fomos apresentados quando eu tinha apenas 6 anos, uma maldade pra uma criança dessa idade, confesso que chorei e fiz o que pude pra não andar com ele, mas não teve jeito, essa seria minha sina por longos anos. No começo fiquei com medo de ser estigmatizado pelos coleguinhas, que como é de conhecimento geral, costumam ser muito mais cruéis do que qualquer psicopata adulto.
Mas segui em frente, a fase de adaptação foi muito difícil e confesso que cheguei a destruir “sem querer” 4 deles em apenas um mês, posso sentir na pele ainda as surras que levei dos meus pais. Mas ele não desistia, trocava a aparência e renascia como uma fênix. Era meu destino.
Na escola fiz de tudo pra conviver com isso, mas nunca escapava dos olhares inquisidores e discriminatórios daqueles que se julgavam “normais”, até na minha foto do ABC ele estava lá comigo, e pra completar esse cenário humilhante, devido a idade, faltavam alguns dentes na minha boca transformando o meu semblante em um sorriso amarelo e desconfortável.
Fui crescendo e ele sempre comigo, desta vez já por volta dos 14 anos, com os hormônos a mil, resolvemos fazer uma trégua. Decidimos jogar no mesmo lado, afinal era nosso destino nos aturar.
Eramos uma dupla agora, e juntos aprontamos barbaridades, eramos sonsos e manipuladores e conseguiamos passar imunes das represálias devido a nossa aparência mais séria (pra não dizer Nerd). Conseguiamos até alguns pontos com as garotas, tinhamos um plano infalível, eu pedia pra elas limparem ele nas suas blusas alegando que o pano da minha não limpava tão bem, elas solícitas, muito por causa dos seus hormônios a 2 mil, se prontificavam a ajudar na hora, me deliciava quando elas deixavam a mostra um pedaço da barriguinha, muitas devido a empolgação com que desenvolviam o ato, deixavam aparecer o umbiguinho. Para garotos da minha idade, mais sensualidade que aquilo só nos encartes de langerie.
Nos momentos mais difíceis e nervosos ele estava comigo, sempre jogando do meu lado, sendo entrevistado pra um estágio ou por um futuro sogro, ele estava alí, passando a credibilidade que eu não tinha. Já éramos velhos amigos.
O tempo foi passando e entrei na vida adulta com todos sabores e amarguras que ela nos proporciona, e meu fiel amigo escudeiro comigo, eu e ele já éramos um só e não me imaginava sem ele, confesso com um pouco de vergonha que cheguei a dormir com ele. Muitas vezes.
Lembro das vezes que ele me salvou de poucas e boas. No trabalho por exemplo, quando ia mostrar minhas idéias pra o diretor de criação (depois de me matar pra sair alguma coisa que preste e só sair merda), o sujeito olhava para o papel e depois me olhava, e por uma fração de segundos chegava a me respeitar, muito por causa desse meu amigo, que me dava um ar de seriedade e inteligência blasé.
Mas o destino é inexorável. Agora com 26 anos, às margens dos meus 27, quis pôr à prova essa união, estava achando que meu amigo não era mais o mesmo, não estávamos mais nos entendendo o que me proporcionou literalmente muitas dores de cabeça.
Procuramos uma ajuda profissional.
Depois de muitos testes, exames e conversas, veio a grande verdade, e ela veio como um soco no estomago. Você não precisa mais dele. Foi assim que essa doutora no mínimo insensível deu o que ela chamou de diagnóstico. Como assim? nessa hora passou o filme da minha vida na minha cabeça, flashes de tudo que passamos juntos, as coisas boas, as não tão boas, pessoas que passaram nas nossas vidas, pessoas até que partiram dessa pra uma melhor. Então caiu a ficha, tinhamos que nos separar mesmo, como tudo na vida que tem um começo, tem um fim. A vida zela o destino.
É meu amigo óculos, você se fodeu.

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Responses

  1. Caralho Rafa, vou lançar um livro com as Crônicas do Rizuto.

  2. Pois eh … “As Crônicas de Rizuto” seria bem interessante! Pq tu não virou redator hein Rizuto?
    Beijão lindo 😉

  3. Meu negócio é arte mesmo, deixa esse negócio de escrever pra que sabe. Beijão

  4. Não é incrível o quanto nos apegamos com peças desse tipo?
    Eu mesmo relutava pacas pra jogar fora algumas carteiras que tive no melhor período de pegação da minha vida. O problema é q sempre tinha alguém (a namorada da vez, geralmente) que me dava outra, acho q devido a demonstração de afeto que eu tinha com as antigas… e prq elas tavam caindo aos pedaços tbém, vai saber.

    Neste ano de 2007 curti um gesso na perna direita. Kct… quando o enfermeiro mandava ver a serra nele, passou um filme dos últimos 18 dias, qse dignos de um texto tão bala quanto esse seu.

    Se sair “As Crônicas”, me manda uma autografada.

    Abraços

  5. Amei seu texto!
    Original, criativo, engraçado, maravilhoso!
    Beijos.

  6. Não sei bem ao certo como vim parar aqui, mas sei que pretendo voltar sempre…
    Muito obrigada pelo elogio!
    Beijokas.

  7. Tem uma vaga de redator e outra de diretor de arte. Queres qual?
    Adoro ler seus escritos, meu velho.
    Abraços

  8. Monstro.. tu eh o pior de todos os monstros =] estou usando oculos ha alguns mese. eh foda to parecendo Renato Russo. kkkkkk Abracao veio!! so tem tu!!


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